POR MAIS CONSCIÊNCIA

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POR MAIS CONSCIÊNCIA

março 27, 2018 admin

Como branca, eu tenho inúmeros privilégios que não me dou conta. E no ano em que se comemora 50 anos da morte do líder negro americano Martin Luther King, acredito que seja um bom momento para fazer essa reflexão.

E quem me enumera as vantagens que eu tenho sem me aperceber são mulheres e homens negros que estão numa roda de debates sobre o Privilégio Branco realizada em março de 2018 no palco do Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão.

Foi a primeira discussão da série Diálogos Impertinentes, promovida por Gustavo Prudente, Ricardo Artur Arroyo e sua empresa Sustenta Mundo – Culturas e Relações Sustentáveis, que tem o objetivo de trazer mais consciência ao ser humano, sobretudo aos que estão dispostos a rever ou afinar seus próprios valores, como eu e você. Nessa série de reflexões, a equipe de facilitadores aborda temas relacionados aos privilégios sociais.

Nessa primeira roda, eles convidaram três ativistas negros para, junto com público, falar sobre o que significa ser branco no Brasil hoje, e como isso impacta quem não é branco. Ao falar de sua própria vida, ou melhor, dos detalhes dolorosos e íntimos de sua própria vida, essas pessoas, que sofrem os mais sutis e cortantes preconceitos (justamente aqueles que não ditos diretamente, mas que podem ser percebidos pelo coração), me deixam com vergonha da minha inconsciência. Ou da minha omissão e silêncio, em muitos casos. Por exemplo, não me dou conta de que:

  • sou privilegiada quando entro num restaurante, ou numa loja, e o segurança não me olha desconfiado só por causa da cor da minha pele;

  • sou privilegiada quando outras crianças da minha idade não me chamam de feia por causa do meu nariz ou do meu cabelo;

  • sou privilegiada quando assisto, sem me causar qualquer incômodo, uma novela ou filme onde os brancos são os protagonistas e heróis, e os negros só ocupam um lugar secundário;

  • sou privilegiada quando todas minhas referências de beleza seguem padrões estéticos determinados pelos brancos e para brancos;

  • sou privilegiada quando sou contratada ou ganho uma promoção por ser branca, enquanto um negro é preterido e perde a vaga por ser negro;

E assim desfilam à minha frente uma série de outras circunstâncias que mostram a mim mesma o quanto de privilégios eu tenho sem ter uma consciência clara disso. Como diz Gustavo Prudente, tomo consciência de que “ser antirracista vai muito além de não fazer comentários racistas, compartilhar posts empáticos aos negros ou ir em manifestações”. É preciso ir além, e nem sempre estamos dispostos a ultrapassar essa fronteira. “Buscar ser antirracista implica no desenvolvimento da coragem de se arriscar a perder privilégios em nome de deixar de ser cúmplice com a perpetuação da estrutura racista. É atravessar o próprio medo em nome da luta pela dignidade de todos”, explica ele.

Sim, porque corro o risco de perder uma vaga se questiono uma contratação que pode ter sido feita por causa da minha cor. Ou me arrisco a ser condenada pela família se impeço meus filhos de assistirem um desenho animado com cenas sutilmente racistas. “Outro dia vi um filme da Barbie em que ela sai do mar com os cabelos loiros e soltos enquanto sua amiga negra sai com os cabelos duros. O comentário dela ao ver a amiga é alguma coisa do gênero: “Hum, que engraçado isso…”. Eu não vou deixar minha filha ver um desenho assim, com uma cena dessas. Porque ali já está embutida a noção de que o branco é bonito e o negro é feio, estranho, porque o engraçado aí está no mesmo sentido de ser estranho, diferente, inferior”, diz uma participante do público, casada com um negro. “Temos de estar vigilantes e atentos com tudo o que as crianças consomem em termos de cultura racista”, afirma. E isso requer uma postura ativa e consciente que nos obriga a nos expor, a sair da zona de conforto, a dizer “não, eu me recuso a compactuar com isso”. Sem medo de críticas ao mostrar abertamente minha indignação e inconformidade com isso.

Quando se tem consciência do próprio privilégio, não dá mais para se omitir e fingir que não se vê a discriminação que é feita com o outro.

Coloridos como as borboletas

Uma das participantes do grupo de debates reconhece que nunca teve consciência do racismo antes de vivenciá-lo a partir do seu casamento com um negro. “Minha família rejeitou a união. O mais incrível disso é que eu sou branca, mas minha irmã é morena: temos ancestrais negros na família”, ela conta. Dolores Medeiros, uma psicóloga especialista em Constelações Familiares que trabalha no Espaço Quintessência, em Santo Antônio do Pinhal (SP), concorda e acrescenta: “É muito comum ver negros casarem com mulheres brancas. E isso pode ser bem dolorido para as mulheres negras”, ela diz. Não é o caso dela, que é casada com o ativista negro Dojival Vieira. Mas ela sabe que essa pode ser uma situação comum. E vejo que um dos efeitos mais perversos do privilégio branco é que ele pode alcançar os próprios negros, ao se transformar em algo desejável também para eles. Meu coração fica cada vez mais apertado.

Relacionamentos entre negros e brancos, nas suas diferentes gradações de cor, é algo muito comum no Brasil. Mas nem sempre em termos de igualdade. Poucos admitem essa realidade evidente quando olham o próprio passado de suas famílias. Convenhamos: ninguém que tenha uma família radicada há muito tempo no Brasil está isento de ter antepassados negros. Mas quem tem coragem de assumir? Nos orgulhamos de sermos quatrocentões, mas esquecemos o restante da história. A família Camargo de Almeida, que é minha família original por parte paterna, por exemplo, tem centenas de anos em terras brasileiras, talvez mais de 400. Somos descendentes do Barão de Mambucaba, cidadezinha perto da região de Paraty. Quem garante o nosso passado? Temos milhões de “Escravas Isauras” no país – gente que parece branca, mas que tem uma porcentagem de características genéticas latentes relacionadas ao negro ou índio. Quem disse que o avô do meu tataravô, por exemplo, não se encantou por uma dessas mulheres? Ou que teve um relacionamento com uma escrava e assumiu os filhos? Nós, brasileiros, somos negros e brancos do café com leite mais branco possível ao preto mais retinto. Vamos deixar de ser bestas, então, é difícil encontrar alguma pseudo-pureza racial por aqui (se ela existisse realmente). E esse fato, que, na verdade, deveria ser motivo de orgulho e nos unir, infelizmente nos separa. E por motivos bem questionáveis.

Não existem raças, e esse fato é mais do que comprovado cientificamente. Temos em nosso DNA não só genes da nossa própria espécie, como de espécies extintas (como os Neanderthais), além da presença de genes de várias origens. Enfim, somos todos juntos e misturados. É o que me garante Dojival Vieira, jornalista e dono da agência de notícias Afropress. E ele se refere a algo que é um bálsamo para o meu coração: somos uma mistura danada de cruzamentos de muitas linhagens genéticas. Não existe nada além do que seres humanos, com uma cabeça, dois braços, duas pernas e sangue vermelho. Nenhuma raça é superior à outra, porque elas simplesmente não existem: somos apenas descendentes de hominídeos originários da África ou Austrália, que foram mudando suas características ao correr do tempo, e de acordo com diversas circunstâncias.

“O importante é enxergar a beleza na diversidade dos seres. Ao afirmar que existe uma raça, e que ela é superior a outra, me torno racialista. O movimento negro americano do Black Power, por exemplo, é racialista”, ele diz. O racialismo nos induz a viver sem interação, cada um no seu quadrado, e se achando o máximo dentro dele. Gosto do tom tranquilo, e ao mesmo tempo firme, de Dojival. Acredito que ele já tenha passado muita raiva e mágoa por causa do preconceito, e que as tenha ultrapassado. Ele e Gustavo Prudente, o facilitador do debate, um branco e um negro, são amigos e moram em Santo Antônio do Pinhal, aqui do ladinho de Campos do Jordão. São exemplos inspiradores de que é perfeitamente possível abrir mão do privilégio, de um lado, e do ressentimento, do outro. Na paz.

Martin Luther King, no seu célebre discurso I have a dream (Eu tenho um sonho), dizia que imaginava tempos futuros nos quais “minhas quatro pequenas crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”. E ele continuava a falar sobre seu desejo: “E onde meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos negros e meninas negras como irmãs e irmãos”. Gustavo e Dojival já são assim. E os filhos deles provavelmente serão assim também. Meu coração começa a se aliviar.

Termino a palestra com um sorrisão daqueles por causa da afirmação pró-diversividade e pró-igualdade racial feita por Dojival Vieira. A luta contra a discriminação continua. Mas já se pode dar outros passos além disso, como enxergar a beleza da multiplicidade entre os seres e o reconhecimento da igualdade de seus direitos como algo absolutamente normal e inquestionável.

Quando criança, queria ter cabelos longos e verdes, como as sereias. Não me importaria se minha pele fosse azul, nem que minhas pupilas fossem douradas, como os seres de Avatar. Seria lindo se eu pudesse ser assim, multicolorida. E que todos pudessem ser assim também. Já imaginou quantas opções genéticas teriam nossos descendentes? Cintilantes, a ostentar as 100 mil opções de tonalidades que nos oferecem o espectro visível das cores, não teríamos mais porque brigar. Seríamos tão misturados que ficaria impossível afirmar qualquer tipo de racialidade ou diferença entre nós. E ficaria de um ridículo total alguém dizer algo como “eu sou mais laranja-avermelhado-dourado-com-tonalidades-violáceas do que você, viu?”.

E, nesse exemplo acima, podemos ver claramente que o problema nunca foi a cor. Mas, sim, o nosso nível de consciência.

 

. O segundo tema a ser abordado pelos Diálogos Impertinentes no Auditório Cláudio Santoro será o Privilégio Hétero, em abril próximo.

 

Foto: Antonio Milton Ito Soares

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